Naquela noite, em que conversaram um pouco sobre si, Cobra d'água levou o amigo ao seu quarto pra dormir: um pouco como se fora amigo um pouco como se fora amante, e embora não tivesse tentado nada, nem um beijo, a sua mão acariciando o ombro mais uma vez pertencia à uma espécie de outra mão, um tipo bom de sentimento.
Fazia tempo, talvez, é que ninguém lhe fizesse um carinho decente. O amigo sorriu e pensou muitas vezes que poderia pular em seu pescoço e viver uma história ardente ali, mas algo mantinha suas forças controladas. A sua natureza impulsiva não conseguia agir, o seu jeito sedutor não atraía um olhar de pecado do amigo que talvez, como cobra d'água mesmo não necessitasse se alimentar assim de carnes sadias demais.
À noite suou sem interrupções e o pensamento não desgrudava dos desejos, do amigo que não era mais amigo, do futuro que não existia, dos termos das outras pessoas que ali não causavam efeito algum, da sociedade urbana e traiçoeira, mais traiçoeiro era o pó e o cheiro daquele chácara, de um outro tipo de feitiço, talvez estivesse enfeitiçado, talvez o melhor fosse voltar e sair dali, pensou no que faria: e não faria nada.
Quando o sol veio devargazinho até si é que vislumbrou o amigo na porta de seu quarto. Trazia uma xícara de chá.
- Acordei cedo, mas sabia que não irias dormir bem. Trouxe isso, talvez te ajude a passar o dia. Mas podes dormir o dia inteiro também.
- Eu não te entendo, eu não entendo esse lugar, até quando me colocaste à cama eu estava bem. Tem alguma coisa errada comigo.
- É que aqui não há nada a fazer, você tem sido você, sem ninguém. Eu, talvez.
Ele deu um pulo e agarrou nas mãos de Cobra d'água que quase fez cair as xícaras. Uma penumbra que o sol descortinava, um olhar de paciência, um clima sem temperaturas. Tombou e dormiu.
Ao acordar pensou que o melhor era sair dali e talvez até convencer o amigo a ir com ele, aquela chácara iria fazer mal a todos e a todos que o visitassem, ou o amigo teria se tornado louco e só agora se percebera disso. Tudo tão duvidoso e cheio de intrigas. Mas que intrigas? As paredes quem sabe lhe dissessem coisas, mas eram simples demais para isso. Nenhuma aventura, nem droga tinha lhe ferido tanto essa coisa de ter alma. Em tão pouco tempo.
Uma vasta mesa de lanche da tarde estava posta. O cheiro de vários sabores e café lhe impregnaram mesmo os pensamentos que não pensara mais em sair dali. Cobra d'água estava sereno como sempre e sorria vez ou outra, indicando cada prato feito.
- Essa geléia fui eu também que fiz. Sabe, o velho me ensinara tudo isso, e eu pensava que passaria a vida sem aprender a cozinhar um ovo. Não sou de comer muito, mas eu percebi que fazia tempo que não fazia esses pratos também e pra ti, tudo isso é especial hoje. Afinal, você teve uma noite difícil.
- Eu não queria falar sobre a noite.
- Você quer falar sobre você?
- Eu não sei. Eu nem sei mais se gosto de ti como amigo, Guilherme.
Seu rosto se alongou e disse sorrindo:
- Você está interessado em mim?
- Eu não sei, eu não sei... é isso.
- Vamos comer.
Assim que terminaram em silêncio provando de cada sabor, Cobra d'água se levantou e foi até o quarto, de lá trouxe um caderno e um lápis.
- Aqui você pode escrever também. Eu comecei assim, escrevendo, e com o tempo fui me habituando com tudo. O mundo agitado e eu aqui. As vontades todas saindo de mim e o velho me fazendo tudo, tudo o necessário e preciso. Você sabe, talvez tenha sido meu grande amor. É incoerente porque um velho e um jovem não vivem de paixões, é outro tipo de história, não é?
- Quando eu voltar pro mundo, o que vai ser de mim?
- Tu precisas voltar?
- Não sei, eu acho corajoso tudo o que tu fazes aqui, a vida que levas, mas eu não entendo, eu não entendo... e além disso, você está lindo...
- Se a gente dormir juntos, você volta?
A pergunta deveria ser diferente, por que era sempre essa coisa do irônico, se eles dormissem juntos é que deveria pedir pra ficar. Mas o desejo era, naquele lugar, o maior adversário entre dois, dormindo juntos uma história começaria e uma história começada a dois, naquele lugar, exigiria uma força que só Cobra d'água descobrira. Nem o velho descobrira isso. O próprio velho vivia de um desejo único de ter companhia até o final da vida. Talvez isso.
E eles dormiram juntos, e o amigo, sem saber e não querendo, desejando ainda mais o outro, fora embora, assim como chegara: em silêncio. Como nessas narrativas de quem encontra alguém numa noite.