Prefácio do Autor


Ficção. Uma novela em formato de blogLivro. Uma aventura dolorosa sobre a verdade.
Um conto sobre a ilusão e amores.

Amores Místicos pretende seguir o mesmo ritmo narrativo das novelas virtuais, 2008 e Orquídea Fantasma.

Do amor entre homens.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Capítulo II: Próximos


Era de se esperar que naquele reencontro ambos iniciassem uma grande festa, preparassem a mesa e sobretudo as bebidas e que entornassem ouvido-a-ouvido os últimos acontecimentos. No entanto, observavam calados a presença um e do outro e por longo tempo de observadores fixavam pontos em si mesmos. O mundo que lhes estava posto era de um sem passado e sem futuro o suficiente para deixá-los em paz.

Que houvesse curiosidade a respeito de cada um, mas o respeito ainda era maior. Que houvessem dúvidas sobre o futuro de cada um, mas a notícia viva de estarem naquele momento juntos era o suficiente para não se desesperarem. Certamente, aquele que chegava tinha maiores perguntas a fazer, mas o sorriso de Cobra d'água era sempre tão singelo e honesto capaz de derrubar qualquer inconveniente.

No jantar, mais frutas que comidas, o amigo recém-chegado tentou conversar sobre o quê o inquietava, porque a presença de Cobra d'água também lhe era desconhecida, muitas vezes como se quisesse pegá-lo nos braços e dar o maior beijo nunca dado entre amigos. Pensou durante a noite anterior que fosse uma carência absurda ou a mudança abrupta de ter saído de sua antiga vida ao ponto de estar ali, numa chácara, sem rumo, sem nada a fazer.

- Eu sei que temos muitas coisas para falarmos de nós mesmos, interrompeu.
- Que engraçado, eu pensei nisso nesses dois dias... mas parece tão bom também viver em silêncio, eu ainda estou me adaptando e ao mesmo tempo admirando o lugar e você que muitas vezes parece tão diferente. Tão calado e eu respeito.
- Tu pensas no passado?
- Incrivelmente eu queria te contar do passado, mas incrivelmente - e sorriu -, eu estou vivendo tão diferente de certa forma a minha vida se inicia aqui, e as coisas do passado que penso em contar parecem risíveis.
- É, aqui tem uma paz diferente.
- Você não se sente só?
- Não.

Mas sentia, só que não era de uma solidão como essas tristes, era uma espécie de solidão quase mística. Sem nunca ter pensado em espiritualismos ou outros dogmas, Cobra d'água encontrara uma característica mansa dentro de si. De certo tinha a consciência de que não era uma mansidão genuína à espíritos de luz, muitas vezes acreditava mesmo que dali surgiria um desejo intenso e profundo por algo que ainda estava por vir: fosse uma ideia, fosse um futuro, fosse outro homem, e que ainda não sabia definir.

- Na verdade, a sua companhia tem me feito tão bem que também não preciso falar muito. Muitas coisas aconteceram desde que nos vimos, não? A minha vida aqui deve ser desinteressante e nossos antigos amigos devem me achar ridículo.
- Alguns... mas outros acham que existe um mistério...
- Por ter me juntado com um velho? Por aquilo que todos nós na juventude parecemos estar predestinados: o jovem e o velho com certo patrimônio e sustento?
- Não! - riu , quer dizer, talvez... nem todos tem essa sorte.
- E o azar também, não é fácil ficar com um quase idoso.
- Então, por que ficar?
- Pelo mesmo motivo de tu estares aqui.

E calou. Voltou-se às inúmeras frutas e espreitou o outro que não tinha motivos para estar ali: uma estratégia de vida.

- Talvez eu te entenda, então.

E a medida que o outro comia, o amigo sentia seu desejo aumentando. Por que depois de tanto tempo ele se tornara tão fascinante e o estimulava daquela forma passional? Algo diferente deve acontecer entre os amigos quando estes passam muito tempo sem se ver, deve ser isso. Ou iria enlouquecer naquele lugar, porque de fato o amigo era o único homem. Ou nunca foram tão amigos assim. Talvez nunca soubesse o que era de verdade ser amigo de alguém.

Juntou algumas sementes e colocou num lixo há distância. Na volta demorou um pouco e ao sentar-se a mesa novamente, concluiu:

- Muita gente nos enganou, aqui ninguém precisa disso.

E para aliviar a conversa contou coisas que aconteciam na chácara, o lado lúdico daquela vida, as aventuras de certos animais, os animais que certamente não existiam também, a vizinhança ao longe e as estações de frutas. Por fim, pedira ao amigo que se autoapelidasse, como ele mesmo fizera.

O amigo pensou bastante, mas não soube responder de imediato. Perceberam que a conversa chegava há horas e resolveram dormir. No outro dia, a chuva, que os obrigara a ficar mais próximos.

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