Prefácio do Autor


Ficção. Uma novela em formato de blogLivro. Uma aventura dolorosa sobre a verdade.
Um conto sobre a ilusão e amores.

Amores Místicos pretende seguir o mesmo ritmo narrativo das novelas virtuais, 2008 e Orquídea Fantasma.

Do amor entre homens.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Capítulo IV: O Desejo


Naquela noite, em que conversaram um pouco sobre si, Cobra d'água levou o amigo ao seu quarto pra dormir: um pouco como se fora amigo um pouco como se fora amante, e embora não tivesse tentado nada, nem um beijo, a sua mão acariciando o ombro mais uma vez pertencia à uma espécie de outra mão, um tipo bom de sentimento.

Fazia tempo, talvez, é que ninguém lhe fizesse um carinho decente. O amigo sorriu e pensou muitas vezes que poderia pular em seu pescoço e viver uma história ardente ali, mas algo mantinha suas forças controladas. A sua natureza impulsiva não conseguia agir, o seu jeito sedutor não atraía um olhar de pecado do amigo que talvez, como cobra d'água mesmo não necessitasse se alimentar assim de carnes sadias demais.

À noite suou sem interrupções e o pensamento não desgrudava dos desejos, do amigo que não era mais amigo, do futuro que não existia, dos termos das outras pessoas que ali não causavam efeito algum, da sociedade urbana e traiçoeira, mais traiçoeiro era o pó e o cheiro daquele chácara, de um outro tipo de feitiço, talvez estivesse enfeitiçado, talvez o melhor fosse voltar e sair dali, pensou no que faria: e não faria nada.

Quando o sol veio devargazinho até si é que vislumbrou o amigo na porta de seu quarto. Trazia uma xícara de chá.

- Acordei cedo, mas sabia que não irias dormir bem. Trouxe isso, talvez te ajude a passar o dia. Mas podes dormir o dia inteiro também.

- Eu não te entendo, eu não entendo esse lugar, até quando me colocaste à cama eu estava bem. Tem alguma coisa errada comigo.

- É que aqui não há nada a fazer, você tem sido você, sem ninguém. Eu, talvez.

Ele deu um pulo e agarrou nas mãos de Cobra d'água que quase fez cair as xícaras. Uma penumbra que o sol descortinava, um olhar de paciência, um clima sem temperaturas. Tombou e dormiu.

Ao acordar pensou que o melhor era sair dali e talvez até convencer o amigo a ir com ele, aquela chácara iria fazer mal a todos e a todos que o visitassem, ou o amigo teria se tornado louco e só agora se percebera disso. Tudo tão duvidoso e cheio de intrigas. Mas que intrigas? As paredes quem sabe lhe dissessem coisas, mas eram simples demais para isso. Nenhuma aventura, nem droga tinha lhe ferido tanto essa coisa de ter alma. Em tão pouco tempo.

Uma vasta mesa de lanche da tarde estava posta. O cheiro de vários sabores e café lhe impregnaram mesmo os pensamentos que não pensara mais em sair dali. Cobra d'água estava sereno como sempre e sorria vez ou outra, indicando cada prato feito.

- Essa geléia fui eu também que fiz. Sabe, o velho me ensinara tudo isso, e eu pensava que passaria a vida sem aprender a cozinhar um ovo. Não sou de comer muito, mas eu percebi que fazia tempo que não fazia esses pratos também e pra ti, tudo isso é especial hoje. Afinal, você teve uma noite difícil.

- Eu não queria falar sobre a noite.

- Você quer falar sobre você?

- Eu não sei. Eu nem sei mais se gosto de ti como amigo, Guilherme.

Seu rosto se alongou e disse sorrindo:

- Você está interessado em mim?

- Eu não sei, eu não sei... é isso.

- Vamos comer.

Assim que terminaram em silêncio provando de cada sabor, Cobra d'água se levantou e foi até o quarto, de lá trouxe um caderno e um lápis.

- Aqui você pode escrever também. Eu comecei assim, escrevendo, e com o tempo fui me habituando com tudo. O mundo agitado e eu aqui. As vontades todas saindo de mim e o velho me fazendo tudo, tudo o necessário e preciso. Você sabe, talvez tenha sido meu grande amor. É incoerente porque um velho e um jovem não vivem de paixões, é outro tipo de história, não é?

- Quando eu voltar pro mundo, o que vai ser de mim?

- Tu precisas voltar?

- Não sei, eu acho corajoso tudo o que tu fazes aqui, a vida que levas, mas eu não entendo, eu não entendo... e além disso, você está lindo...

- Se a gente dormir juntos, você volta?

A pergunta deveria ser diferente, por que era sempre essa coisa do irônico, se eles dormissem juntos é que deveria pedir pra ficar. Mas o desejo era, naquele lugar, o maior adversário entre dois, dormindo juntos uma história começaria e uma história começada a dois, naquele lugar, exigiria uma força que só Cobra d'água descobrira. Nem o velho descobrira isso. O próprio velho vivia de um desejo único de ter companhia até o final da vida. Talvez isso.

E eles dormiram juntos, e o amigo, sem saber e não querendo, desejando ainda mais o outro, fora embora, assim como chegara: em silêncio. Como nessas narrativas de quem encontra alguém numa noite.


domingo, 21 de novembro de 2010

Capítulo III: Cobra d'água


Enquanto chovia demais, Cobra d'água se levantou e sem dizer nada foi até os pés de fruta e dali colheu alguns sabores. O amigo viu tudo impressionado: porque de fato um homem sai à chuva sem fazer barulho ou pedir ajuda, porque os pingos gelados nem o incomodavam nem o deixavam extasiado, porque qualquer outra pessoa voltaria com as frutas correndo e se enxugaria antes de pô-las à mesa.

Nem fora convidado a fazer parte da aventura. E em uma calmaria absurda enquanto trovejava talhou aqueles aperitivos e colocou-os numa tigela simples de barro. Poucas vezes olhava em seus olhos, embora seus olhos estivessem compenetrados no amigo molhado.

A memória lhe dizia sobre outro amigo e este agora, este tal de Cobra d'água, cheio de silêncios para abrir a boca em frases certeiras ou francas demais, de opinião tão forte de si mesmo que era impossível não sentir qualquer comoção. Perguntava-se várias vezes o que afinal teria acontecido durante aqueles cinco anos em que não se viram mais, trocando vez ou outra um telefonema ou email de meses em meses.

Por um tempo imaginou que esqueceria seu verdadeiro nome e passaria a ter apenas este apelido definindo tudo e a tudo modificando sem querer seu próprio universo que, de fato, estava perdido por aí. Pensou que a chácara do amigo lhe traria novas forças, novas ideias, novos impulsos, e justamente não era isso a modificação sofrida? Cada hora era uma hora pesada e pesava mais por ser agradável.

Cobra d'água havia sido um garoto de festas e pensamentos hostis, tinha muitos amigos e sorvia qualquer bebida alcoólica feito suco doce. Vivia com os pais que lhe davam tudo e o aceitavam de qualquer jeito, talvez por displicência ou descaso, talvez por muito amor assim. Era egoísta, à sua forma, e vivia a trabalhar seu individualismo sobrenatural: quando sua língua se aproximava para algum conselho era sempre com os olhos erguidos de força, o que causava medo também. Uma bicha sem carência e dissimulada de tanta alegria que ninguém, por mais que duvidassem de tudo o que fizesse, dispensava a companhia. Cobra d'água não era uma espécie de amigo verdadeiro, mas tinha em suas palavras uma maneira de transmitir desprezo até pelo mundo que tornavam todos ao seu redor príncipes ou reis de um lugar sem culpa.

Com o tempo tornaram-se grandes amigos, e um e outro dormiam juntos e falavam coisas de toda a cultura, de todo o mundo, das novas criações e viados da balada. Ficava com muitos garotos e homens, de diversas idades, tamanhos, belezas e feiúras, mas de fato não amara ninguém, até que conhecera o velho. E o velho carregou o amigo para a chácara e a vida pacífica que o distanciou bruscamente de todos os envolvidos naqueles dias gloriosos de festas.

Pode ser por que os amigos já estivessem todos se formando, ou para se formar, e a vida continuava com destinos de trabalhos e ofícios e preocupações domésticas que pareciam nunca atormentá-lo e então resolvera por uma vida fácil ao lado do velho. Pode ser muitas coisas que se passam numa alma inteira. A verdade é que vendo-o naqueles trajes molhados, não sabia reconhecer se o amigo teria sido sempre assim, como o via agora, ou era um disfarce de algo acontecido no passado, e entre o calor de tantas intensidades da juventude teria passado despercebidos por todos. Talvez porque sim, Cobra d'água era um tipo de disfarce ambulante que só criara amizade consigo.

- Você é realmente feliz nessa chácara, há tanto tempo aqui e sozinho, sem aqueles amigos e aquelas festas, não tem saudades?

- Acho que deixei de pensar em felicidade e a vida corre melhor assim, às vezes paro pra pensar naquele tempo, mas o pensamento é rápido demais e não o pego de volta, as coisas que acontecem acontecem todos os dias. Você está entediado aqui?

- Não, não. Eu só estava me questionando sobre você. Só isso...

Ele riu sem querer e tão leve que mais uma vez comparou-o com imagens do passado, antes seu riso era esgarçado quase sarcástico demais e nunca era sem querer, sempre tinha um propósito, ninguém talvez lhe fizesse sorrir assim, desse jeito, nunca visto. Ou era a natureza que trazia à face um semblante mais delicado de existência.

- Faz tempo que alguém não se preocupa comigo. Eu tinha me esquecido que era bom de ouvir...

Mordeu a fruta.

- E sua família, era tão legal e pra frente, como estão todos?

- Eu deixei pra trás. Eu acho.

Deixou a fruta de lado e tocou em sua mão, alargando o braço lentamente.

- Por que você veio me ver neste lugar? Por que você está aqui se não é pra deixar tudo pra trás? Você não sabe mais quem eu sou, não é? Mas te digo que nem eu mesmo penso em quem eu fui. E é bom assim.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Capítulo II: Próximos


Era de se esperar que naquele reencontro ambos iniciassem uma grande festa, preparassem a mesa e sobretudo as bebidas e que entornassem ouvido-a-ouvido os últimos acontecimentos. No entanto, observavam calados a presença um e do outro e por longo tempo de observadores fixavam pontos em si mesmos. O mundo que lhes estava posto era de um sem passado e sem futuro o suficiente para deixá-los em paz.

Que houvesse curiosidade a respeito de cada um, mas o respeito ainda era maior. Que houvessem dúvidas sobre o futuro de cada um, mas a notícia viva de estarem naquele momento juntos era o suficiente para não se desesperarem. Certamente, aquele que chegava tinha maiores perguntas a fazer, mas o sorriso de Cobra d'água era sempre tão singelo e honesto capaz de derrubar qualquer inconveniente.

No jantar, mais frutas que comidas, o amigo recém-chegado tentou conversar sobre o quê o inquietava, porque a presença de Cobra d'água também lhe era desconhecida, muitas vezes como se quisesse pegá-lo nos braços e dar o maior beijo nunca dado entre amigos. Pensou durante a noite anterior que fosse uma carência absurda ou a mudança abrupta de ter saído de sua antiga vida ao ponto de estar ali, numa chácara, sem rumo, sem nada a fazer.

- Eu sei que temos muitas coisas para falarmos de nós mesmos, interrompeu.
- Que engraçado, eu pensei nisso nesses dois dias... mas parece tão bom também viver em silêncio, eu ainda estou me adaptando e ao mesmo tempo admirando o lugar e você que muitas vezes parece tão diferente. Tão calado e eu respeito.
- Tu pensas no passado?
- Incrivelmente eu queria te contar do passado, mas incrivelmente - e sorriu -, eu estou vivendo tão diferente de certa forma a minha vida se inicia aqui, e as coisas do passado que penso em contar parecem risíveis.
- É, aqui tem uma paz diferente.
- Você não se sente só?
- Não.

Mas sentia, só que não era de uma solidão como essas tristes, era uma espécie de solidão quase mística. Sem nunca ter pensado em espiritualismos ou outros dogmas, Cobra d'água encontrara uma característica mansa dentro de si. De certo tinha a consciência de que não era uma mansidão genuína à espíritos de luz, muitas vezes acreditava mesmo que dali surgiria um desejo intenso e profundo por algo que ainda estava por vir: fosse uma ideia, fosse um futuro, fosse outro homem, e que ainda não sabia definir.

- Na verdade, a sua companhia tem me feito tão bem que também não preciso falar muito. Muitas coisas aconteceram desde que nos vimos, não? A minha vida aqui deve ser desinteressante e nossos antigos amigos devem me achar ridículo.
- Alguns... mas outros acham que existe um mistério...
- Por ter me juntado com um velho? Por aquilo que todos nós na juventude parecemos estar predestinados: o jovem e o velho com certo patrimônio e sustento?
- Não! - riu , quer dizer, talvez... nem todos tem essa sorte.
- E o azar também, não é fácil ficar com um quase idoso.
- Então, por que ficar?
- Pelo mesmo motivo de tu estares aqui.

E calou. Voltou-se às inúmeras frutas e espreitou o outro que não tinha motivos para estar ali: uma estratégia de vida.

- Talvez eu te entenda, então.

E a medida que o outro comia, o amigo sentia seu desejo aumentando. Por que depois de tanto tempo ele se tornara tão fascinante e o estimulava daquela forma passional? Algo diferente deve acontecer entre os amigos quando estes passam muito tempo sem se ver, deve ser isso. Ou iria enlouquecer naquele lugar, porque de fato o amigo era o único homem. Ou nunca foram tão amigos assim. Talvez nunca soubesse o que era de verdade ser amigo de alguém.

Juntou algumas sementes e colocou num lixo há distância. Na volta demorou um pouco e ao sentar-se a mesa novamente, concluiu:

- Muita gente nos enganou, aqui ninguém precisa disso.

E para aliviar a conversa contou coisas que aconteciam na chácara, o lado lúdico daquela vida, as aventuras de certos animais, os animais que certamente não existiam também, a vizinhança ao longe e as estações de frutas. Por fim, pedira ao amigo que se autoapelidasse, como ele mesmo fizera.

O amigo pensou bastante, mas não soube responder de imediato. Perceberam que a conversa chegava há horas e resolveram dormir. No outro dia, a chuva, que os obrigara a ficar mais próximos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Capítulo I: Dias Contados


Ele se aproximou da varanda e relembrou alguns aspectos de sua vida: talvez estivesse vazia mesmo diante daquelas frutas todas de verão enchendo os pés.

Era o coração vazio. Embora muitas vezes sorrisse para si mesmo, como se do vazio viesse a liberdade. Desistiu do mundo quando conheceu seu último parceiro: um homem velho e solteirão que, morto há três meses, lhe deixara aquela pequena chácara de presente. Além da chácara um punhado de livros obscuros e uma quantia em dinheiro que pudesse, ao menos, ter dois ou três anos de vida simples.
Certamente, depois da morte do velho, ele abrira o primeiro livro e vendo que seu futuro poderia se protelar por mais aqueles dois ou três anos de vida simples, sem ter muito rumo, ou quase nenhum desejo humano, denominara-se, talvez para passar o tempo, de: cobra d`água.

Ouviu alguns passos distantes e virou a cabeça sem muita pressa, viu seu amigo recém-chegado se aproximando, o único amigo que lhe restara. Não estava ali de passagem, vinha porque queria mudar sua vida, recomeçar, quem sabe, encontrar um novo amor naquele lugar nem tão distante e nem tão perto da cidade próxima.

Pensou se deveria contar toda a sua história até ali, mas sua forma de silenciar as curiosidades alheias era passar as mãos no próximo, começando pelos ombros, e dar um aperto dizendo: quanta saudade.

O amigo, de certo, também tinha seus mistérios.

Vendo-o naquela imagem tão serena e ao mesmo tempo forte, como se fosse magnata de alguma coisa muito importante da vida, o amigo não quis fazer barulho e foi justamente naquele momento em que sua cabecinha virou-se que percebeu quanta beleza existia entre dois homens, até então fraternos. Não soube precisar mais o tipo de amizade correspondida de si ao outro, mas aquele homem a sua frente não era mais reconhecido. Havia cinco anos que não se viam.

Tentou se lembrar de quando eram muito amigos, de quando nunca nenhum pensamento lhe viera de brincadeira ou perversão... sorriu meio encabulado de si, quando ele se aproximou e tocou em seus ombros dizendo: quanta saudade.

A chácara estava vazia e naquele tempo, com um verão quase se aproximando, não era tempo algum de se pensar nestas coisas dos objetivos da vida. A vida por si só estava decretada naqueles dias apenas por conta de sua vontade de mudar e do acolhimento fraterno. Naquele tempo não era definitivamente tempo de se contar as horas.

E o que estava por vir, deste dia em que chegara em diante, era uma história verdadeira.