Enquanto chovia demais, Cobra d'água se levantou e sem dizer nada foi até os pés de fruta e dali colheu alguns sabores. O amigo viu tudo impressionado: porque de fato um homem sai à chuva sem fazer barulho ou pedir ajuda, porque os pingos gelados nem o incomodavam nem o deixavam extasiado, porque qualquer outra pessoa voltaria com as frutas correndo e se enxugaria antes de pô-las à mesa.
Nem fora convidado a fazer parte da aventura. E em uma calmaria absurda enquanto trovejava talhou aqueles aperitivos e colocou-os numa tigela simples de barro. Poucas vezes olhava em seus olhos, embora seus olhos estivessem compenetrados no amigo molhado.
A memória lhe dizia sobre outro amigo e este agora, este tal de Cobra d'água, cheio de silêncios para abrir a boca em frases certeiras ou francas demais, de opinião tão forte de si mesmo que era impossível não sentir qualquer comoção. Perguntava-se várias vezes o que afinal teria acontecido durante aqueles cinco anos em que não se viram mais, trocando vez ou outra um telefonema ou email de meses em meses.
Por um tempo imaginou que esqueceria seu verdadeiro nome e passaria a ter apenas este apelido definindo tudo e a tudo modificando sem querer seu próprio universo que, de fato, estava perdido por aí. Pensou que a chácara do amigo lhe traria novas forças, novas ideias, novos impulsos, e justamente não era isso a modificação sofrida? Cada hora era uma hora pesada e pesava mais por ser agradável.
Cobra d'água havia sido um garoto de festas e pensamentos hostis, tinha muitos amigos e sorvia qualquer bebida alcoólica feito suco doce. Vivia com os pais que lhe davam tudo e o aceitavam de qualquer jeito, talvez por displicência ou descaso, talvez por muito amor assim. Era egoísta, à sua forma, e vivia a trabalhar seu individualismo sobrenatural: quando sua língua se aproximava para algum conselho era sempre com os olhos erguidos de força, o que causava medo também. Uma bicha sem carência e dissimulada de tanta alegria que ninguém, por mais que duvidassem de tudo o que fizesse, dispensava a companhia. Cobra d'água não era uma espécie de amigo verdadeiro, mas tinha em suas palavras uma maneira de transmitir desprezo até pelo mundo que tornavam todos ao seu redor príncipes ou reis de um lugar sem culpa.
Com o tempo tornaram-se grandes amigos, e um e outro dormiam juntos e falavam coisas de toda a cultura, de todo o mundo, das novas criações e viados da balada. Ficava com muitos garotos e homens, de diversas idades, tamanhos, belezas e feiúras, mas de fato não amara ninguém, até que conhecera o velho. E o velho carregou o amigo para a chácara e a vida pacífica que o distanciou bruscamente de todos os envolvidos naqueles dias gloriosos de festas.
Pode ser por que os amigos já estivessem todos se formando, ou para se formar, e a vida continuava com destinos de trabalhos e ofícios e preocupações domésticas que pareciam nunca atormentá-lo e então resolvera por uma vida fácil ao lado do velho. Pode ser muitas coisas que se passam numa alma inteira. A verdade é que vendo-o naqueles trajes molhados, não sabia reconhecer se o amigo teria sido sempre assim, como o via agora, ou era um disfarce de algo acontecido no passado, e entre o calor de tantas intensidades da juventude teria passado despercebidos por todos. Talvez porque sim, Cobra d'água era um tipo de disfarce ambulante que só criara amizade consigo.
- Você é realmente feliz nessa chácara, há tanto tempo aqui e sozinho, sem aqueles amigos e aquelas festas, não tem saudades?
- Acho que deixei de pensar em felicidade e a vida corre melhor assim, às vezes paro pra pensar naquele tempo, mas o pensamento é rápido demais e não o pego de volta, as coisas que acontecem acontecem todos os dias. Você está entediado aqui?
- Não, não. Eu só estava me questionando sobre você. Só isso...
Ele riu sem querer e tão leve que mais uma vez comparou-o com imagens do passado, antes seu riso era esgarçado quase sarcástico demais e nunca era sem querer, sempre tinha um propósito, ninguém talvez lhe fizesse sorrir assim, desse jeito, nunca visto. Ou era a natureza que trazia à face um semblante mais delicado de existência.
- Faz tempo que alguém não se preocupa comigo. Eu tinha me esquecido que era bom de ouvir...
Mordeu a fruta.
- E sua família, era tão legal e pra frente, como estão todos?
- Eu deixei pra trás. Eu acho.
Deixou a fruta de lado e tocou em sua mão, alargando o braço lentamente.
- Por que você veio me ver neste lugar? Por que você está aqui se não é pra deixar tudo pra trás? Você não sabe mais quem eu sou, não é? Mas te digo que nem eu mesmo penso em quem eu fui. E é bom assim.
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